Não é sobre gramática. É sobre o vício do gerúndio que virou estilo de gestão em boa parte das empresas brasileiras, e que a inteligência artificial, goste-se ou não, não tem paciência para sustentar.
Ontem, quarta-feira, no palco do Startup Summit 2026, em Florianópolis, transmitido ao vivo pelo Sebrae Play, Luiza Trajano soltou uma frase que parecia sobre tecnologia e era, na verdade, sobre gestão: “a inteligência artificial acabou com o gerúndio.” Ouvi ao vivo, e a frase ficou martelando a semana inteira, não pela tecnologia que ela descreve, mas pelo espelho que ela vira para dentro de qualquer empresa.
Porque o gerúndio, esse tempo verbal de quem está sempre “fazendo” e raramente “fez”, não nasceu na gramática. Ganhou fama nacional na política, quando o então ministro da Saúde prometeu, ainda no governo Fernando Henrique Cardoso, “outra vacina que vamos estar aplicando amanhã.” Virou piada de programa de humor, virou símbolo do país inteiro, e décadas depois continua vivo, só que mudou de endereço: saiu do discurso político e se instalou dentro dos comitês, das reuniões de acompanhamento e dos relatórios de status de qualquer empresa de porte médio para cima.
Não havia vacina nenhuma sendo aplicada amanhã. Havia um verbo emprestado para adiar uma resposta que ninguém queria dar.
O Conceito de Verdade: A Parede Que Ainda Está Sendo Pintada
Toda casa tem uma parede assim. Aquela que você “está pintando” há três anos, com a lata de tinta ainda fechada na garagem, o rolo comprado, a cor escolhida no aplicativo do fabricante, e a parede exatamente da cor que estava antes. Se alguém perguntar, a resposta sai automática: “estou pintando a sala, só falta um tempinho livre.” Só que não existe pintura em andamento nenhuma. Existe uma intenção antiga travestida de projeto em curso, e ela vai continuar “em andamento” para sempre, porque gerúndio não tem data de término, tem apenas duração indefinida.
Dentro das empresas, o fenômeno é idêntico, só que mais caro. “Estamos analisando a proposta”, “estamos mapeando o processo”, “estamos validando com o jurídico”, “estamos evoluindo a solução.” Cada uma dessas frases pode ser absolutamente legítima na primeira semana. Na décima segunda, deixou de ser status e virou personagem fixo da reunião, alguém que sempre aparece, nunca conclui, e ainda assim segue sendo aplaudido por “estar no assunto.” E não por acaso é justamente a reunião o habitat natural do gerúndio corporativo: já escrevi sobre como o encontro síncrono virou o mecanismo que as organizações usam para compensar tudo aquilo que não funciona no modo assíncrono, e boa parte dessas reuniões existe só para narrar, com outras palavras, o mesmo “estamos fazendo” da semana anterior.
O contraponto que precisa ficar registrado
Nem todo gerúndio é disfarce. Existem processos que legitimamente levam tempo, negociações que exigem paciência, decisões complexas que seria irresponsável apressar só para produzir a sensação de conclusão. Fechar rápido não é sinônimo de decidir bem, e empresa que troca análise por impulso paga um preço tão alto quanto a que nunca sai do “estamos vendo isso.”
A diferença entre o gerúndio legítimo e o gerúndio disfarce está em uma coisa simples: existe prazo, dono e critério de encerramento definidos desde o início, ou a resposta “estamos analisando” já dura mais tempo do que o problema levaria para ser resolvido de verdade? Quando ninguém consegue dizer até quando vai durar o “estamos”, já não é análise. É gerúndio puro.
A Camada Que Ninguém Monitora
Os números ajudam a entender por que essa cultura custa tão caro para o país inteiro, não só para uma empresa isolada. Segundo dados da Organização Internacional do Trabalho, o Brasil ocupa apenas a 94ª posição entre 184 países e territórios em produtividade do trabalho, mesmo trabalhando, em média, 38,9 horas semanais, mais do que 97 outras nações. O Japão, o país de menor produtividade entre os membros do G7, ainda assim produz mais do que o dobro do que se produz, por hora trabalhada, no Brasil.
O dado importa porque desmonta uma desculpa comum: o problema brasileiro raramente é falta de horas dedicadas ao trabalho. É o que se faz dentro dessas horas. Um país inteiro pode estar, coletivamente, “trabalhando bastante” e ainda assim produzir pouco, porque parte relevante dessas horas é gasta em gerúndio corporativo: reunião sobre reunião, relatório de status sobre um status que não muda, alinhamento sobre um alinhamento anterior. É trabalho, tecnicamente. Não é entrega. Já defendi antes que hábitos simples e consistentes, como cumprir horário e cumprir prazo, pesam mais na produtividade do que qualquer discurso de transformação, e o gerúndio é exatamente o oposto disso: o hábito de nunca chegar ao prazo combinado, disfarçado de compromisso com a qualidade.
É por isso que a observação de Luiza Trajano incomoda tanto quem trabalha com tecnologia. A inteligência artificial não tem gerúndio operacional: ou o modelo responde, ou erra, ou trava, mas não existe “a IA está processando sua solicitação há três meses.” Ela expõe por contraste, de forma quase constrangedora, times inteiros que vivem havia anos numa versão humana exatamente desse travamento, só que socialmente aceito porque vem embrulhado em reunião de acompanhamento.
O Que os Líderes Precisam Perguntar
Diante disso, quatro perguntas merecem ir para a próxima reunião de status, de preferência antes que a palavra “estamos” apareça mais uma vez sem prazo de validade. Em primeiro lugar, esse “estamos fazendo” tem data de entrega definida, ou é uma frase que se repete, praticamente idêntica, há mais de um mês? Em seguida, quem é o dono dessa entrega, e essa pessoa sabe que é dona, ou o trabalho está distribuído de um jeito que ninguém, individualmente, responde pelo resultado final? Além disso, o que aconteceria se essa tarefa fosse cobrada amanhã de manhã, às oito horas, sem aviso prévio, a equipe teria algo concreto para mostrar? Por fim, e talvez a pergunta mais desconfortável de todas: quantos dos seus liderados, se você prestar atenção honesta às próprias respostas deles nas últimas reuniões, ainda vivem no gerúndio?
Nenhuma dessas perguntas exige ferramenta nova, plataforma ou investimento. Exige apenas alguém disposto a interromper a frase no meio e perguntar: “fazendo até quando?”
Para Refletir
A inteligência artificial não vai substituir quem entrega. Vai apenas deixar mais visível, e mais rápido, quem nunca entregou nada além da própria narrativa de estar tentando. O gerúndio sempre foi um jeito educado de adiar uma resposta, e durante décadas funcionou porque ninguém tinha pressa suficiente para cobrar o ponto final. Agora existe uma tecnologia inteira competindo em velocidade contra esse hábito, e ela não vai esperar a parede terminar de secar.
Enquanto o seu time ainda está fazendo, a inteligência artificial já fez.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.
