Antes que você feche essa página achando que um cara que vive de tecnologia perdeu a cabeça, deixa eu terminar a frase. Na verdade, eu odeio o que estamos fazendo com ela, não a ferramenta em si.
Semana passada, apresentei um projeto e usei inteligência artificial para montar três dos dez slides. Logo depois, ainda com o microfone na mão, um executivo me perguntou se eu tinha virado anti-tecnologia. A sala riu. Eu não ri, porque a pergunta certa nunca foi se eu uso IA. Na verdade, o que importava era o que a empresa dele estava fazendo com ela, e a resposta, naquele caso específico, doía.
Não virei anti-tecnologia. Virei anti-desculpa.
Toda Casa Que Recebe Eletricidade Nova Precisa Trocar a Fiação Antes
Imagine uma casa antiga, construída para vela e lampião, que um dia recebe eletricidade pela primeira vez. O morador pendura um lustre bonito na sala, instala um chuveiro elétrico no banheiro, compra um freezer novo para a cozinha, e comemora a modernização. Contudo, a fiação continua a mesma de sempre, fina, sem aterramento, pensada para outra época. Funciona por um tempo. Até não funcionar mais, e aí não é o lustre que quebra primeiro. É a casa inteira que corre risco.
Inteligência artificial entrou na maioria das empresas exatamente assim: como eletrodoméstico novo, ligado numa fiação de outra era. Todo mundo pendurou o lustre. Quase ninguém trocou o processo, a governança, o critério, antes. Por isso, eu odeio inteligência artificial, ou melhor, odeio o jeito capenga como estamos fiando essa casa toda.
Isso Não É Elogio ao Ludismo
Preciso deixar registrado, antes de continuar, uma coisa importante. Este texto não é discurso de quem tem saudade de um tempo que era pior em quase tudo que importava. Uso IA todos os dias, para rascunhar, para pesquisar, para acelerar o que antes levava horas. Aliás, empresa que trava a adoção por medo também perde: perde velocidade, perde competitividade, perde gente boa que quer trabalhar com ferramenta atual. O problema nunca foi ligar o aparelho novo. Foi ligar sem checar a fiação antes. Ou seja, é isso que eu odeio.
Eu Odeio Quando a Infraestrutura Vira Brinquedo Sem Dono
Odeio quando vibe coding virou a nova planilha descontrolada. Afinal, é aquele aplicativo que alguém monta num fim de semana e que, seis meses depois, ninguém mais sabe quem mantém. Odeio quando a empresa acumula colcha de retalhos de aplicativo de IA espalhado por todo canto. No final, ninguém entrega nada de verdade, porque cada ferramenta fala uma língua diferente da vizinha. Odeio quando ainda tratam IA como ferramenta a mais na caixa, e não como a infraestrutura que ela já virou. Afinal, infraestrutura exige manutenção e cuidado constante. Odeio quando acreditamos que dá para potencializar todo mundo, ao mesmo tempo, sem nenhuma governança amarrando isso. Ora, velocidade sem direção não é a mesma coisa que avanço.
Já escrevi sobre como a planilha nunca morreu, só virou aplicação, sem que a governança tivesse acompanhado a mudança. Com IA generativa, esse mesmo padrão só ficou mais rápido de se espalhar pela empresa inteira, e mais difícil de enxergar a tempo. Segundo o Work Trend Index da Microsoft e do LinkedIn, 78% dos funcionários que usam IA no trabalho trazem ferramenta própria, sem passar pela empresa. Além disso, 60% dos líderes admitem que a organização não tem visão nem plano formal para lidar com isso. A casa está cheia de fiação improvisada, e quase ninguém subiu no telhado para checar.
Eu Odeio Quando a Estratégia Vira Teatro
Odeio quando o prompt bem escrito é tratado como se fosse ter um plano de verdade. Eu Odeio quando a IA serve para aprovar mais rápido uma decisão ruim, em vez de ajudar a tomar uma decisão melhor. Odeio quando o board pergunta qual é a nossa estratégia de IA antes de perguntar qual problema de negócio ela deveria resolver. Isso inverte a ordem que sempre devia vir primeiro. Odeio quando a métrica que sobe em cada apresentação é de vaidade: quantidade de licença comprada, quantidade de agente rodando. Ainda assim, ninguém mede quanto daquilo virou valor de negócio de fato.
Já venho batendo nessa tecla de outra forma: ter a ferramenta não é ter estratégia. Um estudo do MIT, publicado em 2025 sob o título “The GenAI Divide: State of AI in Business”, confirma o tamanho do problema. De fato, 95% dos projetos-piloto de inteligência artificial generativa dentro das empresas não geram nenhum retorno financeiro mensurável. Não é problema de modelo fraco. Na verdade, é problema de ninguém ter decidido, antes de ligar a ferramenta, qual resultado real ela deveria perseguir.
Eu Odeio Quando o Pensamento Atrofia
Odeio quando a IA aumenta a procrastinação em vez de reduzir. Alguém te manda um texto, você não lê, e joga na IA. Agora, em vez de um texto, você tem dois, com exatamente o mesmo poder cognitivo disponível para interpretar qualquer um dos dois: zero. Odeio quando tudo virou resumo executivo e nada de conteúdo de verdade sobrou por trás dele. Odeio quando gerar quarenta ideias em dois minutos vira sinônimo de ficar mais criativo, quando só ficou mais volumoso. Afinal, filtrar continua sendo trabalho humano que ninguém quer fazer.
Eu Odeio quando IA vira a desculpa perfeita para não formar gente júnior, porque “a IA já faz aquilo”. Daqui a cinco anos, consequentemente, não sobra ninguém sênior o suficiente para revisar o que a IA entregou. Odeio quando a empresa demite quem sabia fazer e mantém só quem sabia pedir para a IA fazer. Junto com a demissão, ela perde a capacidade de julgar se o que a IA fez está certo. Odeio quando todo relatório sai com o mesmo polimento artificial. Assim, a empresa perde a voz de quem escreveu, porque tudo passou pelo mesmo filtro antes de chegar à mesa.
E Odeio Quando o Crítico Erra o Alvo
Por fim, confesso que também odeio o crítico de plantão. Ele passa raspando por cima de tudo isso só para caçar travessão de texto gerado por IA. É como se pontuação fosse prova definitiva de alguma coisa. Em vez disso, deveria perguntar se aquele texto tem algo que realmente vale a pena carregar para dentro da cabeça de quem lê.
O Que os Líderes Precisam Perguntar
Diante desse tanto de coisa que me tira do sério, quatro perguntas merecem entrar em qualquer comitê que decide sobre IA dentro da empresa. Em primeiro lugar, existe um responsável nomeado pela governança de cada ferramenta de IA em uso? Ou cada área está livre para trazer a sua própria fiação improvisada? Em seguida, qual decisão de negócio essa iniciativa de IA deveria melhorar, e essa decisão foi nomeada antes ou depois da ferramenta ser escolhida? Além disso, alguém está medindo o que a IA realmente mudou no resultado? Ou a empresa só está contando quantas pessoas fizeram login na plataforma este mês? Por fim, quando foi a última vez que alguém leu um texto até o fim, sem pedir um resumo antes? Isso importa só para não perder o hábito de pensar sem atalho.
Para Refletir
Eu não odeio inteligência artificial. Odeio a versão dela que vira desculpa para não decidir, não formar gente, não governar nada, e não ler até o fim. A ferramenta nunca foi o problema. Na verdade, a ausência de critério é que ficou mais fácil de esconder atrás dela.
Eu não odeio a inteligência artificial. Odeio a falta de critério que ela deixou mais fácil de esconder.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.
