A governança de IA nas empresas está repetindo o mesmo ciclo que nenhuma implantação de ERP conseguiu encerrar: o usuário sempre encontra um atalho. Antes era a planilha. Agora é a aplicação gerada em quinze minutos com um prompt. O problema não mudou. O custo e o risco, sim.
O gerente abriu o laptop com a satisfação de quem chegou com a resposta.
“Aqui está o que construímos”, ele disse. A aplicação rodava no browser, tinha interface limpa, integrava três processos que o ERP nunca deu conta, e já era usada por doze pessoas no time. Levou uma tarde para ser criada. Uma tarde e um modelo de linguagem.
A pergunta que ele não esperava: “Quem aprovou?”
Silêncio.
“Os dados saem para onde?” Mais silêncio.
“Quem paga os tokens quando o uso escalar?” Desta vez, uma resposta honesta: “A gente não tinha pensado nisso.”
O Problema Que Sobreviveu ao ERP
Durante décadas, a promessa da implantação de ERP foi a mesma: unificar os dados, eliminar os controles paralelos, acabar com a proliferação de planilhas que viviam entre departamentos e na memória de um analista que ninguém poderia perder.
Contudo, essa promessa nunca se cumpriu completamente.
Não por falha da tecnologia. Mas porque o ERP resolve o que o ERP foi projetado para resolver, e o usuário sempre tem um problema que o sistema não cobre. E quando o usuário tem um problema que o sistema não resolve, ele encontra uma solução. Sempre encontrou.
Na prática, essa solução era a planilha. Rápida, flexível, sem processo de aprovação, sem ticket para a TI, sem prazo de seis meses para uma nova funcionalidade. O usuário abria o Excel, construía o que precisava e seguia em frente.
Por isso, os departamentos de TI passaram anos tentando eliminar esses controles paralelos. Criaram políticas, auditaram arquivos, bloquearam compartilhamentos. Em alguns casos, conseguiram reduzir. Em nenhum caso, eliminaram.
De fato, o problema não era a planilha. Era a lacuna entre o que o sistema entregava e o que o negócio precisava.
A IA Não Criou o Problema. Ela Multiplicou.
Na verdade, a diferença entre uma planilha e uma aplicação gerada por IA não é de natureza. É de escala, velocidade e complexidade.
Uma planilha levava horas para ser construída. Uma aplicação funcional, com interface, lógica de negócio e integração básica, pode ser gerada em minutos. Assim, o usuário que antes precisava dominar Excel agora precisa saber fazer uma boa pergunta. Por isso, saber fazer uma boa pergunta é uma habilidade distribuída de forma muito mais ampla do que saber construir uma planilha complexa.
Isso significa que a barreira de entrada para criar shadow IT caiu dramaticamente.
Além disso, o que antes era um arquivo numa pasta é hoje uma aplicação rodando em produção, consumindo APIs, processando dados reais, sendo acessada por múltiplos usuários simultaneamente. A planilha tinha escopo limitado. O app gerado por IA não tem limite natural de escopo.
Ou seja, o mesmo impulso que criava a planilha, a lacuna entre o que o sistema oficial entrega e o que o negócio precisa, agora cria aplicações inteiras. Com banco de dados embutido, autenticação e relatórios. Em uma tarde.
O Que Mudou e o Que Continua Igual
O que continua igual é a raiz do problema. De fato, sistemas corporativos não acompanham a velocidade com que o negócio evolui. Usuários encontram atalhos. Dados críticos vivem fora dos sistemas oficiais. Processos importantes dependem de ferramentas que ninguém da TI conhece.
No entanto, o que mudou é tudo o mais.
Na prática, a planilha tinha risco de governança. A aplicação gerada por IA tem risco de governança, risco de segurança de dados, risco de conformidade regulatória e risco de dependência de um fornecedor externo que o usuário escolheu sem processo de avaliação.
Por sua vez, a planilha tinha custo marginal zero para a empresa. O custo extra era o tempo do analista. A aplicação gerada por IA consome tokens. Cada consulta, cada processamento, cada usuário adicional tem um custo real. E esse custo, quando não monitorado, não aparece no orçamento da TI. Aparece no cartão corporativo de alguém, ou na fatura de um serviço que ninguém sabia que a empresa usava.
Sendo assim, o shadow IT deixou de ser apenas um problema de controle de dados e processos. Agora é também um problema financeiro ativo.
A Planilha Que Ficou Cara
Afinal, esse é o detalhe que a maioria das organizações ainda não processou.
Por exemplo, a planilha custava uma licença do Office. Um valor fixo, já amortizado, invisível no orçamento. O usuário podia criar quantas planilhas quisesse sem que o controller percebesse.
Já a aplicação de IA funciona de forma diferente. Cada uso consome créditos. Cada resposta gerada tem um custo. Quando doze pessoas usam a aplicação do gerente três vezes por dia, processando documentos extensos, o custo mensal de uma “solução caseira” pode superar o de uma funcionalidade adicional no ERP.
Contudo, como esse custo está distribuído em cartões pessoais, contas corporativas de múltiplos serviços e subscrições aprovadas sem avaliação técnica, ele é invisível para quem decide o orçamento de tecnologia.
Por isso, a empresa não sabe quanto está gastando em IA fora de governança. E o que a empresa não consegue medir, a empresa não consegue gerenciar.
Governança de IA: O Que os Líderes Deveriam Perguntar
A resposta errada para esse problema é proibir. De fato, as organizações que tentaram proibir planilhas falharam. As que tentarem proibir aplicações de IA vão falhar com mais velocidade e mais consequências.
Portanto, a resposta certa é governança de IA. E governança começa com as perguntas certas:
Em primeiro lugar: a organização sabe quais aplicações de IA estão sendo usadas nos seus processos hoje? Não as aprovadas pela TI. As que existem de fato, na prática, nos laptops e contas individuais de cada área.
Em seguida: existe uma política clara sobre quais dados podem ser processados por ferramentas de IA externas? Dados de clientes, informações financeiras, contratos. Quem decidiu o que pode sair e o que não pode?
Além disso: há visibilidade sobre o custo real de IA na organização? Não só o que está no orçamento de TI. O que está nos cartões, nas assinaturas individuais, nas contas de área que ninguém consolidou.
Por fim: existe um processo para que o usuário que identifica uma lacuna possa criar ou solicitar uma solução dentro de um perímetro seguro? Afinal, se não houver um caminho seguro, ele vai criar fora. Sempre criou.
Para Refletir!!!
O ERP nunca ganhou a guerra contra a planilha. Não vai ganhar a guerra contra o app gerado por IA.
Em suma, isso não é uma crítica ao ERP. É uma observação sobre comportamento humano diante de sistemas que não resolvem todos os problemas. As pessoas encontram soluções. É o que as pessoas fazem.
A governança de IA nas empresas não começa com tecnologia. Começa com honestidade: reconhecer que o shadow IT nunca foi eliminado, que a IA acelerou o problema, e que a resposta não pode ser a mesma que falhou na era das planilhas.
Além disso, o custo de não governar não é só financeiro. É o dado de cliente que saiu da organização sem que ninguém soubesse, o processo crítico que depende de uma aplicação que o colaborador levou consigo quando saiu e a decisão tomada com base no output de um modelo que ninguém validou.
Afinal, a planilha cara não é o problema. É o sintoma de algo que as organizações conhecem há décadas e ainda não aprenderam a resolver de verdade. Quer conhecer mais conteúdos que falam de estilo de vida, saúde, gastronomia, entreterimento, empreendedorisomo e geraçào Z: Clique aqui
A IA não criou o shadow IT. Ela o tornou mais rápido de construir, mais barato de começar e mais caro de ignorar.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.
