Belo Horizonte

Carnaval de BH: como a cidade reconquistou a maior festa de rua

Carnaval de BH: como a cidade reconquistou a maior festa de rua

Antes do início oficial da folia nesta sexta-feira, 13 de fevereiro, relembre como Belo Horizonte viveu o auge, o esvaziamento e a retomada de um carnaval que hoje atrai milhões de pessoas

Com expectativa de receber cerca de 6 milhões de foliões em 2026, três vezes a população da cidade, o Carnaval de BH vive um dos momentos mais simbólicos de sua história. Consolidado como um dos maiores do Brasil e uma das maiores festas populares do mundo, o evento movimenta a economia, ocupa as ruas e transforma a relação da cidade com o espaço público.

Somente em 2024, a folia gerou quase R$ 1 bilhão em impacto econômico, criou mais de 20 mil postos de trabalho e garantiu retorno direto aos cofres públicos. Ainda assim, esse crescimento recente contrasta com um passado marcado por interrupções, resistência e longos períodos de esvaziamento.

O Carnaval de BH nasceu junto com a cidade

O Carnaval de BH não é um fenômeno recente. Seus primeiros registros remontam a fevereiro de 1897, antes mesmo da inauguração oficial da capital. Trabalhadores que atuavam na construção da cidade improvisaram um desfile com carroças, fantasias e rostos pintados, caminhando da Praça da Liberdade até a Avenida Afonso Pena. Assim nascia o corso, manifestação que deu origem aos blocos caricatos, expressão cultural única de Belo Horizonte.

Nos anos seguintes, surgiram bandas carnavalescas, batalhas de confete e, já na década de 1930, as primeiras escolas de samba. A Pedreira Unida, criada na Pedreira Prado Lopes, marcou o início de uma tradição profundamente ligada à população negra e trabalhadora da cidade.

Ao longo do século 20, o Carnaval de BH chegou a figurar entre os mais relevantes do país, sempre com forte presença popular e identidade própria.

Quando o Carnaval saiu das ruas

Apesar da força cultural, a festa enfrentou sucessivos entraves do poder público. Em diferentes períodos, taxas foram cobradas para bailes de rua e leis limitaram a realização de eventos populares. O golpe mais duro veio em 1989, quando uma enchente levou ao cancelamento do carnaval. Nos anos seguintes, a festa deixou de ser incentivada e a cidade passou a ser promovida como destino de descanso durante o feriado.

Escolas de samba perderam apoio, os desfiles foram empurrados para regiões periféricas e o carnaval de rua praticamente desapareceu do centro da cidade. Ainda assim, ele nunca deixou de existir por completo. Resistiu em clubes, bairros e nas periferias, sustentado por quem se recusava a abandonar a tradição.

A retomada e a ocupação do espaço público

A virada começou no fim dos anos 2000. Em 2009, blocos como Tico Tico Serra Copo, Peixoto e Approach surgiram de forma espontânea. No mesmo ano, uma tentativa de proibir eventos na Praça da Estação acabou gerando o efeito contrário. A reação popular deu origem à Praia da Estação, movimento que ressignificou o uso do espaço público e impulsionou a retomada do Carnaval de BH.

A partir dali, novos blocos surgiram com propostas diversas, ocupando ruas, praças e bairros inteiros. O carnaval cresceu de forma orgânica, descentralizada e profundamente conectada às pautas sociais, culturais e identitárias da cidade.

Nos anos seguintes, blocos como Então Brilha, Angola Janga, Sagrada Profana e Tchanzinho Zona Norte ajudaram a consolidar um modelo plural, diverso e democrático, que transformou o carnaval em símbolo de direito à cidade.

Do crescimento à consolidação

A expansão foi rápida. Em 2013, os blocos passaram a atrair grandes multidões, especialmente na região central e em Santa Tereza. Em 2015, mais de 1 milhão de pessoas ocuparam as ruas. Dois anos depois, o número já ultrapassava 3 milhões de foliões.

Em 2019, o tema É de todo mundo marcou a consolidação do evento como política pública estruturante. Antes da pandemia, mais de 500 blocos estavam cadastrados. Em 2023 e 2024, o carnaval voltou ainda mais forte, com foco em segurança, diversidade e descentralização.

Hoje, a programação conta com mais de 600 desfiles, espalhados por todas as regiões da cidade, além dos tradicionais blocos caricatos e escolas de samba.

Carnaval de BH movimenta turismo, bares e restaurantes

O crescimento da festa impacta diretamente outros setores. O BH Airport estima a circulação de mais de 400 mil passageiros durante o período carnavalesco, enquanto plataformas de transporte rodoviário apontam aumento expressivo no fluxo de pessoas entrando e saindo da capital.

A procura por hospedagem cresceu cerca de 50 por cento em relação ao ano anterior, com destaque para grupos de três ou mais pessoas. A ocupação hoteleira na região Centro Sul já ultrapassa 60 por cento, com expectativa de chegar a níveis semelhantes aos de 2025.

Bares e restaurantes também sentem os efeitos positivos. Levantamento da Abrasel indica que 72 por cento dos empresários esperam faturar mais neste Carnaval de BH, impulsionados pelo aumento no fluxo de turistas e pelo tempo maior de permanência na cidade.

Reconhecida pela Unesco como Cidade Criativa da Gastronomia, Belo Horizonte transforma sua cozinha em mais um atrativo da festa, reforçando a vocação para receber bem e gerar renda a partir da cultura.

Uma festa construída coletivamente

Mais do que números, o Carnaval de BH é resultado de uma construção coletiva. Blocos, artistas, trabalhadores da cultura, ambulantes, catadores e empreendedores fazem a engrenagem girar. A expectativa é de que cerca de 6,2 milhões de pessoas participem da folia ao longo de todo o período.

Com início já nesta sexta-feira, 13 de fevereiro, o carnaval reafirma sua essência popular. Uma festa que saiu das ruas, resistiu nas bordas e voltou ao centro para se tornar um dos maiores símbolos de Belo Horizonte.

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Redação

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