Quando a vida pede rota nova: o que aprendi recomeçando de zero
Por Lucas Machado
Em algum ponto da vida profissional e pessoal, a conta não fecha mais. A rotina continua, as entregas acontecem, os compromissos se repetem, mas por dentro algo começa a arranhar. Não é só cansaço. É a sensação de que você sabe fazer aquilo, mas já não se enxerga ali pelos próximos dez anos. Foi nessa fricção que vários dos meus recomeços nasceram, tanto na carreira quanto nas escolhas que fiz fora dela.
Ao longo da minha trajetória na comunicação e nas decisões que tomei na vida pessoal, nenhuma virada importante veio embalada em certeza. O que existia era um desconforto insistente, um desejo de testar outras formas de contar história, de viver o dia a dia, e um medo considerável de jogar fora o que eu já tinha construído. O que me empurrou para frente, no fim das contas, foi entender que ficar parado também era um risco.
Toda mudança começa muito antes do anúncio oficial. Ela começa nas pequenas dúvidas diárias. Naquela pergunta silenciosa que aparece no caminho para o trabalho ou no meio de um fim de semana sem graça. Na irritação que cresce com coisas que antes passavam batido.
Comigo foi assim. Eu gostava da área em que atuava, mas comecei a perceber que o espaço para criar estava encolhendo. A parte que me movia de verdade já não ocupava tanto tempo da agenda. Quando percebi que eu passava mais horas apagando incêndio do que construindo algo que fizesse sentido, entendi que o problema não era só o volume de tarefas.
Era o rumo. E isso não valia só para o trabalho. Valia para a forma como eu organizava minha rotina, meus relacionamentos, meu tempo livre. Esse é o ponto em que muita gente trava. A zona de conforto pode não estar confortável, mas é conhecida. Recomeçar exige abrir mão dessa familiaridade, aceitar não saber todas as respostas e, principalmente, se permitir ser iniciante de novo. Seja numa nova função, seja numa mudança de cidade, seja num ciclo de amizades que precisa ser revisto.
Toda vez que mudei de rota, as perguntas foram parecidas. “Será que não estou jogando tudo fora?” “E se eu me arrepender?” “E se não der certo?” Elas não desaparecem porque você é experiente na sua área ou porque já passou dos trinta. Na verdade, quanto mais tempo você passa em um lugar, mais alto parece o degrau do próximo passo. Na comunicação, vejo esse movimento o tempo inteiro. Jornalista que decide ir para o digital. Redator que vira estrategista de marca. Profissional de assessoria que migra para conteúdo de marca ou produto.
De fora, parece uma transição linear. Por dentro, é um misto de excitação e medo. E o mesmo vale para quem decide se mudar de cidade, trocar de círculo social, terminar um relacionamento longo ou assumir um estilo de vida diferente do que a família esperava. O que faz diferença não é não sentir medo. É não deixar que ele decida por você. O medo pode participar da reunião, mas não pode sentar na cadeira de diretor.
Propósito virou palavra da moda, mas, na prática, ele é menos discurso e mais alinhamento. Em todos os recomeços que fiz, a pergunta central foi a mesma: qual parte da minha vida eu não quero abrir mão? No meu caso, a resposta sempre girou em torno de contar histórias, criar conexões reais e dar visibilidade a iniciativas que mudam a vida de alguém, mesmo que em escala pequena. Foi isso que me levou do jornalismo ao marketing, da publicidade ao digital, costurando funções diferentes com um mesmo fio condutor.
E também foi o que me ajudou a filtrar amizades, relações afetivas e escolhas de lazer que faziam ou não sentido para o tipo de pessoa que eu queria ser. Quando você sabe qual é esse fio, as decisões difíceis ficam um pouco menos nebulosas. Você passa a escolher projetos, empresas, parcerias e até pessoas que conversam com aquilo em que acredita. Não é garantia de vida perfeita, mas evita que você se perca de si mesmo no meio do caminho.
Um dos choques de qualquer recomeço é descobrir, na prática, que o repertório que te trouxe até ali não dá conta de tudo que você precisa agora. Ao invés de encarar isso como humilhação, eu comecei a tratar como atualização de sistema. O mercado muda em ciclos cada vez mais curtos. Ferramentas, formatos, linguagem, métricas.
O que funcionava há cinco anos pode ser ruído hoje. Em comunicação, isso é gritante. Plataformas nascem, morrem, ressurgem. Formatos que pareciam experimentais viram padrão. E na vida pessoal também. O que você sabia sobre saúde, alimentação, exercício, relacionamento afetivo ou organização financeira pode estar desatualizado ou simplesmente não servir mais para o momento em que você está.
A única forma que encontrei de não virar peça de museu foi estudar o tempo todo. Curso curto, workshop, leitura técnica, tutorial, conversa com gente que está na linha de frente. Não como um acúmulo de certificados, mas como um compromisso de não trabalhar, nem viver, em piloto automático. Recomeço sem estudo vira salto no escuro.
Nenhuma virada da minha trajetória aconteceu sozinha. Sempre teve alguém que abriu uma porta, fez uma conexão, indicou meu nome numa reunião em que eu nem sabia que estava sendo citado. Às vezes foi um ex-chefe, às vezes um colega, às vezes alguém que esbarrou comigo num projeto pontual e lembrou de mim meses depois. E às vezes foi um amigo que me apresentou a alguém, ou uma pessoa que conheci num momento de lazer e que acabou virando parceira de trabalho. Isso não é sorte pura. É rede.
É presença e a forma como você se relaciona ao longo do tempo. Quando você entrega direito, trata as pessoas com respeito e mantém pontes abertas, essa rede começa a trabalhar a seu favor, tanto na carreira quanto nas oportunidades que aparecem na vida pessoal. Networking não é trocar cartão ou adicionar contato. É estar disponível para ouvir, compartilhar o que você sabe, ajudar quando pode e, claro, ter coragem de pedir ajuda quando precisa. Muitas das mudanças mais importantes que aconteceram na minha vida profissional e pessoal começaram com uma mensagem simples enviada na hora certa.
Quando olho para trás, não vejo uma sequência de cortes bruscos. Vejo uma história que foi ganhando capítulos diferentes, mas que conversa entre si. Cada etapa trouxe habilidades, contatos, cicatrizes e aprendizados que uso até hoje. Nada foi totalmente desperdiçado.
Nem os tropeços profissionais, nem os vínculos que se desfizeram, nem decisões que pareceram erradas no momento. Recomeçar, para mim, nunca foi negar quem fui, nem muito menos esquecer de onde vim e quem esteve comigo. Foi selecionar o que permanecia, soltar o que apertava e aceitar que, em muitos ciclos, seria preciso aprender novamente desde o início. É incômodo. É exigente. Mas é ali que o percurso deixa de ser linha reta e se torna estrada viva, com curvas, atalhos e paisagens que jamais apareceriam se eu tivesse parado porque movimento sempre revela sentidos escondidos ao longo caminho.
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