Comportamento

Solidão urbana: como podemos estar cercados de pessoas e ainda nos sentir sozinhos

Vivemos em cidades pulsantes, cheias de vozes, sirenes e agendas cheias. Ainda assim, a solidão faz fila nos elevadores lotados, no metrô das seis e num apartamento à beira de uma rua barulhenta. Estar cercado não garante mais que haja conexão. Entre o ruído e a multidão, o vazio se torna mais que silêncio, é presença que falta.

A multidão que não acolhe

Estudo do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), analisou 82 publicações sobre isolamento urbano. Os pesquisadores concluíram que ambientes com grande concentração de pessoas que não possuem qualquer relação familiar podem agravar a percepção de solidão. Ou seja, não adianta estar entre muitos, é preciso pertencer a algo. A cidade grande nos dá vizinhos, prédios, cafés lotados, mas nem sempre nos oferece laços.

A tecnologia, aliada e inimiga

No meio de tanta proximidade física, a tecnologia nos prometeu laços mais rápidos, mais vastos e mais acessíveis. E a promessa foi cumprida, até certo ponto. Contudo, a vida digital também pode replicar a solidão: conexões instantâneas que se desfazem no scroll, notificações que substituem afeto, “amigos” que são perfis. Um ensaio teórico da contemporaneidade afirma: a solidão não é apenas ausência de outro, mas “um sintoma social” da vida individualizada e mediada por telas. 

Sob o barulho das ruas, ecoa o vácuo interior

A sociedade moderna funciona em um ritmo acelerado. Nesse compasso, torna-se cada vez mais difícil encaixar o “ser” no tempo do “estar com”.

A proximidade física, por si só, não garante troca genuína e conexão verdadeira, às vezes basta um olhar fixo na tela do celular para que a presença se dissolva e a distância se instale, mesmo a poucos centímetros de alguém.

Quando a solidão vira problema de saúde pública

A solidão urbana não se limita ao campo da melancolia; ela impacta a saúde mental, desencadeando ansiedade, depressão e até mesmo mortalidade. O estudo do IDOR aponta que a solidão pode “mudar a circuitaria neuronal” e tem efeitos semelhantes ao isolamento físico prolongado.

Mas como romper esse ciclo de urbanidade vazia? Algumas pistas:

  • Redescobrir a lentidão: menos “tempo de tela”, mais “tempo de tocar”.
  • Cultivar espaços de pertencimento como: movimentos, grupos, vizinhanças que geram identidade.
  • Valorizar o encontro não programado: um banco de praça, um café sem finalidade além da presença.

Estar junto não é sinônimo de estar presente. Por isso, entre o concreto dos arranha-céus e o som das buzinas, talvez o maior ato de coragem seja acalmar o corpo e estender a mão, não para tirar uma foto, mas para tocar alguém que esteja do outro lado.

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Redação

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