A discussão sobre o futuro do Centro de Belo Horizonte ganhou uma palavra central: prédios.
Depois de décadas de esvaziamento residencial, imóveis fechados e perda de dinamismo, o hipercentro volta ao debate com a proposta de estimular novas construções e transformar edifícios antigos em moradia.
Os números ajudam a dimensionar o desafio.
Hoje, o Centro tem cerca de 14 mil moradores. Para comparação, o Buritis reúne aproximadamente 42 mil habitantes. O Sagrada Família supera 30 mil moradores.
Ou seja, bairros essencialmente residenciais têm duas ou três vezes mais gente vivendo ali do que o coração da capital.
O problema não é falta de estrutura
O Centro tem praticamente tudo: hospitais, escolas, comércio consolidado, linhas de ônibus, metrô, equipamentos culturais e acesso facilitado à Região Metropolitana.
O que falta é moradia.
Grande parte dos prédios está subutilizada, envelhecida ou com ocupação exclusivamente comercial. À noite, muitas ruas ficam vazias. E cidade vazia perde vitalidade.
A proposta em debate busca estimular transformação de prédios antigos em apartamentos, retrofit de edifícios históricos, conclusão de obras paralisadas, e também, incentivo à habitação, inclusive de interesse social.
A lógica é simples: trazer moradores para onde a infraestrutura já existe.
A lógica da cidade de 15 minutos
Em Paris, ganhou força o conceito da “cidade de 15 minutos”. A ideia é que as pessoas consigam trabalhar, estudar, acessar saúde, lazer e comércio a até 15 minutos de caminhada ou bicicleta de casa.
Menos deslocamento. Mais vida local.
Se o Centro de BH voltasse a concentrar moradia de forma significativa, ele se aproximaria desse modelo. Ali já existem serviços, transporte, cultura e empregos. O que falta é densidade residencial.
A expansão de prédios pode ser instrumento para aproximar Belo Horizonte dessa lógica urbana mais eficiente e menos dependente do carro.
E o trânsito?
O trânsito é um dos maiores gargalos da capital. Milhares de pessoas se deslocam diariamente de bairros distantes e cidades da Região Metropolitana para trabalhar no Centro.
Quando moradia e emprego ficam separados por longas distâncias, o resultado é previsível: congestionamento, tempo perdido e custo invisível para a cidade.
Reocupar o Centro significa reduzir deslocamentos pendulares.
Menos viagens longas diárias significam menos pressão sobre avenidas como Antônio Carlos, Cristiano Machado e Amazonas.
Mais moradores no hipercentro podem representar menos carros entrando na região pela manhã e saindo no fim do dia.
Não é solução mágica. Mas é parte da equação.
Mais prédios significam mais vida?
Essa é a aposta.
Quando há mais gente morando, há mais circulação, comércio aberto por mais tempo, maior sensação de segurança e uso mais intenso dos espaços públicos.
Hoje, é paradoxal: bairros como Buritis e Sagrada Família concentram forte vida residencial, enquanto o Centro, que concentra empregos e serviços, tem baixa densidade de moradores.
A ideia não é apenas erguer prédios mais altos. É aumentar a presença humana onde hoje predominam salas comerciais vazias e galpões subutilizados.
O risco de apostar só nos prédios
Prédios, por si só, não resolvem.
Sem planejamento urbano, qualidade arquitetônica, preservação do patrimônio e áreas públicas bem cuidadas, o resultado pode ser apenas adensamento desordenado.
Para funcionar, é preciso garantir diversidade social, equilíbrio entre moradia e comércio, espaços de convivência, além de regras claras e fiscalização
O Centro não precisa apenas de prédios mais altos.
Precisa de mais gente vivendo perto do trabalho, andando menos de carro e ocupando as ruas.
A pergunta continua aberta: os prédios serão apenas concreto ou o começo de uma nova lógica urbana para BH?
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

