Olhando para a parede. Por Lucas Machado

Olhando para a parede. Por Lucas Machado

Olhando para parede do meu quarto eu vejo três coisas: um mapa, fotos e espaço vazio. Olho para o mapa eu me lembro porque eu estou aqui, rabiscando essas linhas: eu vim, pois, conservo um desejo, inexplicável e indomável, de escrever.

E principalmente, de conhecer a mim mesmo, me esforçar para ser melhor e gosto também de conhecer pessoas e lugares, de trazer principalmente reflexão para minha escrita.

Esse desejo deve ter tido alguma coisa há ver com minhas escolhas até aqui. Sou movido pela curiosidade, quero saber como é, quero ver pessoalmente, conhecer e contar histórias, conferir as estrelas de onde estiver, saber quem está estampado na cara da moeda.

Curiosidade, sobretudo, para saber se as pessoas vão ser diferentes, se as casas vão ser diferentes, se alguma coisa vai ser diferente. Vontade de achar beleza nas coisas mais banais e nas coisas mais extraordinárias.

Vontade de ir e ver. Olhando para o mapa eu sou lembrado também que eu tenho acesso a algo que vale a pena ser compartilhado.

Então, inevitavelmente, eu percebo que de todos os países no mapa eu estive em poucos e, que ainda tenho muito chão e pedras a rolar.

Logo abaixo do mapa, estão as fotos, bem clichê eu sei, tenho fotos instantâneas pregadas na parede.

Milhões de adesivos de marcas de sk8. Elas são a minha coleção de momentos e cores.

Olhando as fotos na parede eu aprendo muito, já os stickers do skate guardam muitas histórias e muitas saudades, de pessoas e lugares que conheci por causa do carrinho de rodinhas.

Eu aprendi que tudo bem estar sozinho. Elas me lembram que eu vi sozinho cenas lindas que já vivenciei, eu estava sem ninguém que eu conhecesse por perto.

Sinto-me obrigado a explicar que eu tenho certeza de que eu nunca estou sozinho mesmo.

Eu acredito que tem um cara que rege tudo isso e, ele é onipresente. Talvez essa seja a razão de eu me sentir tão confortável em estar sozinho, é que na verdade eu não me sinto só.

As fotos me lembram que minha felicidade não depende das outras pessoas, que eu não dependo de ter companhia para ser feliz, para apreciar o que tem de belo na minha frente.

As fotos me lembram das cores e cenários, de como foi bonito e, de alguma forma, significante.

Elas também me fazem pensar em como foi bom ter tido essas aventuras por minha conta, sem outrem, em como eu escolhi o meu próprio roteiro e passei o tempo que eu quis fazendo o que eu quis.

E como é boa a sensação de liberdade, a dose de adrenalina e aventura, e na gratidão por ter dado certo.

Olhando para as fotos na parede eu reparo as fotos que não saíram como o planejado: algumas completamente pretas, uma completamente branca, pelo menos uma outra bem escura.

Essas me ensinam ainda mais. As pretas mesmo que não mostrem nada me fazem lembrar da cena que eu quis guardar, elas são como um cofre com vários tesouros.

Esse tesouro é a memória que eu tenho da Califórnia, México, Havaí, de um pôr do sol que eu vi e guardei dentro de mim uma big wave, quebrando nas ilhas.

Acho que era uma dessas coisas que não se permitem limitações, aliás o que realmente é limitante nas nossas vidas? O que esta te impedindo de liberar sua liberdade?

Tudo bem, tentativa e erros fazem parte da vida.

Também faz parte aprender a guardar algumas coisas só para você é e não tentar limitar, não limitar bandas a gêneros, pessoas a rótulos, momentos a fotografias.

Momentos

E tudo bem tentar, a gente continua tentando, mesmo que as primeiras tentativas não tenham dado certo é preciso insistir. E no final se o meu objetivo era me lembrar daquele momento, foi alcançado.

Mas olhando para parede eu vejo outras fotos, que me fazem ter certeza de que mesmo que seja uma delícia me aventurar sozinho, é quando estou cercado de pessoas queridas que minha felicidade transborda.

Tenho certeza de que preciso de pessoas por perto. Porque é sempre melhor ter alguém com quem dividir. Alguém para dividir a memória, a aventura, aquele rolê, as risadas, o último chocolate ou a conta.

Pessoas queridas

É bom ter mais de um sorriso na foto. Ter uma pessoa querida do seu lado é a única coisa que pode tornar um momento incrível ainda mais incrível, mesmo sabendo que sou feliz sozinho e adoro minhas carreiras solo.

Afinal, olhando para minha parede eu vejo também um vazio. Da mesma foto que o mapa me lembra que eu ainda tenho muito o que andar, o vazio na parede me lembra que tem espaço (nela e em mim) pra novos lugares, aventuras, projetos pessoais, biografias, viagens e outras pessoas.

E tem espaço para dobrar cada foto, duplicar todas elas, mesmo que meio diferentes, tem espaço para visitar de novo cada lugar, para abraçar de novo cada pessoa.

Mesmo que a parede aperte meu coração me lembrando que eu já não estou na Golden Gate ou em Venice, mesmo que aperte meu coração não estar no México com meus Hermanos queridos.

A parede me enche com a satisfação de ter vivido cada um desses momentos colecionados.

A parede acorda em mim a vontade de viver mais e intensamente. Assim exatamente como sou, a alegria que toma conta de mim ao vivenciar momentos com pessoas. Na parede, enquanto as fotos são para mim o vazio, se torna alegria e a certeza sempre do novo. Hasta !!

Sobre Lucas Machado Instagram: LUCAS MACHADO

Sobre Lucas Machado: www.porlucasmachado.com.br

Olhando para a parede. Por Lucas Machado

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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