O apocalipse do comércio varejista: a gente não quer só comida

O apocalipse do comércio varejista

Definitivamente eis o cenário que se desenha no comercio, em todo o mundo.

Antecipadamente os prognósticos são de que nos próximos anos um terço dos 1.100 shoppings no mundo fecharão as portas, transformando-se em cidades fantasmas. Será ?

A crise dos centros comerciais, geralmente situados nas áreas urbanas e suburbanas das cidades estadunidenses, aliás antecipa o que os analistas prognosticam para o varejo em geral.

Comércio on-line

O principal motivo da derrocada é a vertiginosa ascensão do comércio on-line dos produtos de reposição e dos artigos que o consumidor não precisa provar antes de comprar, seja um livro ou tênis da marca e do modelo que ele já usa. Certamente ainda existe uma resistência porém esta cada vez menor.

No caso dos shopping-centers, há também quem aponte, como causa adicional do seu declínio, o renascimento das áreas centrais das cidades, com o consumidor recusando-se a se deslocar em grandes distâncias.

Assim a previsão é de que as lojas de vendas a varejo sejam substituídas, nas ruas das cidades, por “showroomings”.

São lojas de experimentações, inicialmente em que o consumidor conhece e testa os produtos expostos. Quando encontra exatamente o que deseja, acaba realizando a compra pelo meio on-line.

Alguém que – por exemplo – queira adquirir um tablet, irá ao “showrooming” de produtos digitais. Será atendido por um afável e bem treinado consultor, que ciceroneará o cliente em um passeio pela loja, percorrendo todos os modelos disponíveis.

O cliente pode ir ao “showrooming” em companhia da mulher e dos filhos. A recepção a eles será calorosa, com água, café e biscoitos. Ouvirão o pianista que, lá do fundo, desfia o repertório dos Rolling Stones ou de artistas que estão nas paradas de sucesso. Os produtos são manejáveis por todas as pessoas presentes.

Quer dizer: propicia-se àquela família a oportunidade de uma convivência social, ainda que breve, com os demais visitantes do “showrooming”.

Experiência

A tradução da palavra vivência para a língua inglesa é “experience”. Daí por que entre nós tornou-se o chavão do momento dizer que o consumidor hoje quer a “experiência”.

Mas, para sermos coerentes com o nosso idioma, deveríamos dizer que ele quer a “vivência”.

Esta é uma observação oportuna e importante, porque se refere a uma palavra que traduz a tendência que se acentua no mundão e, portanto, mais cedo ou mais tarde, invadirá estes trópicos.

O consumidor quer ir às ruas para ter uma vivência, uma fruição da vida, desfrutando das atrações que a cidade lhe oferece.

Por exemplo. Ele pode ter a comida em casa, por meio de entrega em domicílio (delivery). Basta pegar o seu celular e pedir uma pizza. Esparramado no sofá, pode também assistir ao filme.

Basta colocar na tela um desses serviços de transmissão contínua (streaming) de vídeos. “Mas, hoje não!”, esbraveja o parceiro (a). Eles não aguentam mais. Querem uma vivência fora das quatro paredes de sempre.

É assim que vão a um bar, onde os aguardam a aconchegante acolhida, o ambiente decorado, a música ao vivo, o atendimento de solícitos garçons e garçonetes. Ou vão ao cinema, já na entrada comprando o chocolate e a pipoca.

Titãs

Há 30 anos, os Titãs já prenunciavam com a música “Comida” o sentimento que agora se generaliza. A letra de Arnaldo Antunes foi universalmente premonitória.

Pois, então. Os shopping-centers mundo afora encontram a alternativa de transformar aqueles seus enclaves de silentes consumidores em um espaço de múltiplas vivências: bares, cafés, bistrôs, restaurantes, a barbearia e o salão de beleza com o tema de um bar à Al Capone ou de um cenário da Noviça Rebelde; a loja de artigos retrôs, com atendimento a cargo de uma garotada; o nicho infantil, com a venda de brinquedos de madeira e a apresentação de teatro de bonecos. E por aí vai.

A onda global é a vivência. Ou a experiência, como dizem os arautos das corporações que já inventaram os “devices” (dispositivos) para manejar o consumo neste início do século XXI.

Em boa parte, esses propagandistas representam conglomerados inseridos no universo “on-line” e estão ansiosos para faturar com a maré da novidade.

Que nesta era da “vivência” a gente vá para as ruas, com segurança e os devidos protocolos nos reencontrando uns com os outros e com a nossa pátria, a nossa mátria, a nossa língua.

Que possamos vivenciar os ambientes socialmente diversificados, com praças, feiras livres, parques, bares, restaurantes, cafés, bistrôs, cinemas, quadras esportivas, pistas de caminhadas, ciclovias.

Vamos nos policiar para sair dessa forma inacreditável que estamos vivendo trancafiados dentro de casa. Isso sim é o verdadeiro apocalipse, lembrando que a gente não quer só comida, queremos diversão e arte.

Temos de sair um pouco de frente da tela, para que possamos trazer à tona aquilo que de fato somos, neste país abençoado por Deus e bonito por natureza. Hasta !! #porlucasmachado

O apocalipse do comércio varejista

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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